Na segunda sessão do cineclube da disciplina de História do Cinema Mundial foi exibida a produção senegalesa Touki Bouki (1973), primeiro longa-metragem de Djibril Diop Mambéty. Contamos nesse encontro com a participação de Tiago Castro, pesquisador do cinema africano e mestre pelo PPGCOM/UFF.
A mesa foi aberta com uma breve apresentação em que Tiago nos ofereceu um panorama deste que seria o mais jovem cinema do mundo, uma vez que assistira ao desenvolvimento de suas bases a partir do processo de independência de nações africanas na década de 60. Dado o que não é difícil compreender que em grande medida esse cinema seja voltado à construção de uma linguagem que lhe seja própria, que se afirme enquanto emancipada e que consiga, antes de mais nada, se autorrepresentar.
O Senegal surge aqui como um chamado “berço” do cinema africano. A primeira produção rodada em terras do continente seria Borom Sarret (1963), curta-metragem de estreia de Ousmane Sembène. Sem se esquecer que antes disso já houvera um filme rodado por senegaleses, porém em terras europeias. Afrique sur Seine (1955), de Paulin S. Veyra e Mamadou Sarr, dedica-se ao retrato das condições de estudantes africanos na França – país com o qual, mesmo após a descolonização, o Senegal manterá muitos laços.
La noire de… (1966), que explora os efeitos da dominação cultural através da história de uma jovem que se muda para a França, é o primeiro longa-metragem de Ousmane Sembène e também o primeiro filme africano a ganhar reconhecimento internacional. A partir de então seria identificado com esse cinema o chamado realismo socialista – linguagem marcada pelo realismo em sua forma e pelo socialismo em seu conteúdo.
E aqui é o momento em que Mambéty surge e se destoa, nos trazendo uma linguagem sem progressão linear narrativa e amplamente aberto a interpretações.
Touki Bouki é seu primeiro longa e traz a história de um casal de jovens: Mory, um vaqueiro que monta uma motocicleta com um crânio bovino, e Anta, uma estudante universitária. Descontentes com o próprio país e maravilhados com o imaginário de uma França idealizada, buscam diferentes e astuciosas formas de se conseguir dinheiro para poder embarcar para longe de sua terra.
Após a projeção foi aberto o espaço para o debate e muitas questões interessantes foram levantadas. Podemos começar relembrando algumas:
o retrato da juventude aparece como um aspecto importante da obra de Mambéty e de maneira bastante simbólica. Os jovens, com todo o seu potencial revolucionário, poderiam ser aqueles que almejam transformar o país. Porém, completamente desiludidos, negam este potencial e tudo o que buscam é ir embora e deixar o país para trás. Esta triste representação de uma juventude pós-colonial traz consigo o peso do legado deixado pela exploração. E consigo o vazio: de não se ter mais, simplesmente, solução a que se recorrer;
o conflito entre tradição e modernidade permeia todo o filme enquanto reflexo do próprio país. Mory traz essa contradição dentro de si e sua moto com chifres de boi é o seu grande símbolo. Com passado de vaqueiro, mas agora sem lugar, ele vagueia pelas cidades. A sua opção no momento derradeiro marca a negação da modernidade que antes buscara. Enquanto Anta, em sentido contrário, se vê sozinha no cinza do navio que zarpa no mar vazio. Nenhum dos dois terá final que se realize; mais uma vez, chegamos à ausência de qualquer solução;
o conflito entre a tradição oral e as referências europeias também é marca da produção. Simbólica em especial na trilha sonora, que mescla músicas africanas com o jazz e o blues;
a representação de tabus destoa o cinema de Mambéty de seus conterrâneos. Trabalha-se a morte, o sexo, a nudez e a homossexualidade. Todos entremeados de significados e símbolos.
Temos aqui, portanto, uma obra moderna, carregada pelas contradições sobre as quais a sua produção se assenta e que, se não quer selar o destino daquilo que retrata, quer causar sobre ele ao menos um desconforto. Foi levantado na conversa o fato de que esse filme chegou a ser criticado, no contexto das produções africanas, por não apresentar uma crítica social. Mas que em verdade, e em sentido totalmente diferente, a crítica se faz aqui sim presente. Ela se faz pela sua acidez; também pela ironia de muitos momentos. Sintomático é, por exemplo, o personagem do policial, interessado apenas em seu cigarro; ou do burguês, que conhece todos os policiais pelo nome e tece com eles uma relação estreita de corrupção. A apatia dos ricos na piscina em frente ao mar e o absurdo onírico dos personagens principais em desfile na parada são outras sequências que poderiam ser citadas.
A relação com a França, a maneira como Paris é idealizada e ao mesmo tempo ironizada mereceu atenção especial. A música da trilha é cantada por Josephine Baker, exemplificando rara exceção em que uma negra em território francês atinge a tão desejada ascensão. Ao mesmo tempo, o navio que levará Anta se chama Ancerville, em alusão ao navio que conduzira a personagem de “Le noire de...” para a frustração naquelas terras.
Chegamos a que Mory talvez seja o próprio boi no abate, enquanto jovem pós-colonial: alienado da função que um dia exercera, e agora às margens, sem lugar. Sua moto é roubada e se destrói; o que ele tinha, se perde enquanto cegamente outra coisa era procurada. Entra-se em uma dimensão cíclica, provando que as dificuldades que existiam enquanto colônia ainda perduram, mesmo que de outra forma. Quando Mory encontra a moto destruída, e levanta o chifre caído com a mão, o homem que a roubara lhe dirige a voz: “Está reconhecendo? Era uma bela fera.”
Foi um belo filme e uma bela sessão. Muitos dos presentes falaram, e também foram levantados certos aspectos da linguagem. A montagem é bastante ousada, assumindo o delírio ao misturar, em certas sequências, momentos documentais com planos sem continuidade. A sensação que ela constrói é diferenciada, em que muitas coisas não se sabe ao certo se aconteceu, ou em que ordem aconteceu. Há também em momentos o trabalho com a profundidade de campo: em planos com o mar, aumenta-se (ou evidencia-se) a distância entre os personagens e os navios – entre eles e aquela realidade que eles acreditam existir em algum lugar. Há a saturação de certas cores, como em roupas, em contraste com a paisagem africana. E bastante preparo no roteiro, na construção da narrativa; uma preocupação com a melhor realização daquele que foi o filme imaginado.
Uma obra bastante representativa, e que vale ser buscada por quem não pôde comparecer.
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